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Galinha ou gavião? 17/11/2004 |
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Uma análise cronológica do governo Lula e seus desdobramentos, políticos e econômicos. | |
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Primeiro artigo |
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Nos idos de 2002, quando a eleição de Lula parecia provável, o dólar passa de R$4, a bolsa desaba até 8mil pontos e o risco país bate em improváveis 2mil pontos. O mercado preparou-se para o pior. Não acredito em terrorismo econômico como muitos pensaram e fizeram parecer, pois foi um movimento de milhares de investidores individuais em busca de proteção. A inflação dispara no fim do ano por conta da alta do dólar e o BC eleva os juros até 26%, freando a atividade econômica. Lula elege-se com uma campanha moderada e centrista, prometendo reformas e estabilidade política e econômica. A equipe de transição é formada pelos melhores nomes do partido, capitaneados por Palocci, que começa a dar sinais fortes e claros de transição suave e manutenção das políticas econômicas responsáveis e conservadoras. FHC tenta sair do poder com uma imagem de estadista e faz nos últimos meses de 2002 a melhor e mais transparente transição que se podia esperar. 2003 então começa em meio a uma forte recessão. A inflação não está debelada. Henrique Meirelles é nomeado para o BC sob aplausos do mercado. Meirelles nomeia uma equipe técnica e pró-mercado, como não poderia deixar de ser num banco central. A esquerda do PT começa a ter convulsões pois Lula realmente toma o rumo prometido. A moderação da campanha não foi maquiagem eleitoral como esperavam. Na 1a reunião do COPOM do governo Lula, sob uma colossal expectativa, os juros sobem 0,5% e assim se mantém por seis meses. A inflação assusta, bolsa já iniciou sua trajetória de alta, dólar e risco país iniciaram também sua longa queda. A máquina começa a andar, os ministérios são nomeados e as forças políticas tomam posse desse verdadeiro assentamento. Lula tenta implementar seus programas sociais. O "fogo amigo" começa a ganhar força. Os "radicais" não se conformam com os rumos da política econômica. A ekipekonomica ganha destaque e poder sobre as demais áreas. Lula obtém maioria no congresso e na câmara e consegue aprovar a reforma da previdência. Os radicais vêm abaixo, votam contra, rebelam-se e são expulsos. A base radical está rachada. A oposição se perde ao ver seus projetos sendo postos em prática pelos ex-combatentes e seus quadros sendo assediados por partidos governistas. A base centrista cresce. Em meados de 2003 a economia atinge o fundo do poço. A atividade econômica é estrangulada por juros de 26,5% durante seis meses. Lula sustenta de forma quase hercúlea a ekipe e sua política. Rajadas de fogo amigo e inimigo atingem o núcleo duro no momento mais difícil até então. O horizonte, porém, está mais claro, com a inflação controlada. Começa então uma redução firme e gradual de 10% nos juros até o início de 2004. Essa queda de juros faz a economia dar alguns sinais de recuperação ainda no final de 2003. Todos no governo acreditam ter plantado em 2003 para colher de 2004 em diante. Os ruídos políticos de Dirceus e Alencares continuam atrapalhando a condução da economia, fazendo com que a ekipe tenha que dar a cada decisão, sinais de independência. Isso talvez tenha feito com que os juros tenham subido mais que necessário, mantidos mais que necessário e decido mais devagar que possível. 2004 finalmente começa, com céu de brigadeiro. Os números são mais e mais positivos e a atividade recupera-se. O ápice se dá em abril, quando o BC percebe um descontrole na inflação que o mercado não enxergava e interrompe a queda dos juros. Alguns ajustes são feitos que geram alguma turbulência. Na mesma época o caso Waldomiro explode e complica o cenário político. Uma dor de barriga vem pela frente. Os programas sociais não funcionam, boa parte das pastas recebem novos titulares, mais profissionais. Fome zero patina, bolsas avançam muito timidamente. As eleições que se encaminham formam um cenário perfeito para um legislativo letárgico. A dor de barriga continua. Próximo das eleições os números positivos intensificam-se, dando força aos candidatos governistas. O problema passa a não ser mais o crescimento, mas a manutenção dele. O país acorda para outros problemas estruturais, que não os juros. A infra-estrutura está em frangalhos e o cobertor curto orçamentário não é muito animador. As PPPs podem ser a saída com investimento privado e retorno garantido pelo governo, mas o projeto não sai do congresso paralisado. O PIB cresce próximo de 5% ao ano. O desemprego cai lentamente, a renda cresce. A atividade em geral cresce, na industria, no campo e no comércio. Ainda avançamos sobre o primeiro passo do crescimento, usando capacidade já instalada, bem como infra-estrutura. Porém para a produção crescer continuamente, novos investimentos são necessários. A carga tributária continua sufocante, a máquina pública ineficiente e cara. As eleições passam com sérias conseqüências para a base parlamentar. A aprovação de reformas importantes se torna mais difícil. A conjuntura internacional continua favorável, e o Brasil só cai se tropeçar nas próprias pernas. A ave brasileira alçou vôo, mas estamos muito longe para reconhecê-la. Ainda não dá pra saber se é uma mera galinha tropical ou um poderoso gavião, de vôos altos e duradouros. Mantido o atual cenário de investimentos, regras e tributos, são grandes as chances dessa ave ser uma galinha, cabe ao governo e a sociedade torná-la um gavião, mediante as reformas necessárias para desobstruir as artérias do desenvolvimento. |