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PT x PSDB: a uniformização da política

12/11/2004

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  A disputa acirrada entre o PT e o PSDB  no segundo turno das eleições municipais não mostra divergências programáticas de fundo; ao contrário, provam, inequivocamente, a uniformização da estrutura partidária brasileira e a defesa do mesmo projeto político pelos dois maiores partidos burgueses do país.

A novilíngua da Reforma Universitária

   
   

As eleições para prefeito mostram, nas principais cidades do país, uma redefinição da correlação de força dos partidos políticos. A grande novidade fica por conta do crescimento vertiginoso do PT, que polariza a disputa eleitoral com o PSDB em várias capitais brasileiras. Para se ter uma idéia, de acordo com uma recente pesquisa [1] das 44 cidades onde haverá segundo turno, 32 terão na futura gestão um prefeito do PT ou do PSDB. Essa concorrência, ao contrário do que possa parecer, não representa o confronto entre dois projetos políticos distintos, mas a uniformização ideológica do sistema democrático-burguês no Brasil.  

O pensamento único do momento resultou do longo processo de adaptação do PT ao aparato eleitoral. Essa busca e dependência das instituições acelerou a mudança pragmática de orientação ideológica e, por conseguinte, a abertura do leque de alianças políticas do partido. As prefeituras serviram de experiência administrativa nos marcos do regime e da conciliação de classes. Nesse ínterim a base operária e popular do PT garantia um eleitorado fiel às propostas alternativas de cunho burguês apresentadas pelos candidatos petistas. Havia, entendidas as limitações ideológicas, diferenciação de visões políticas, se bem que reformistas e não contraditórias em relação aos interesses da patronal e do capital estrangeiro. O discurso cada vez mais simpático à burguesia é uma conseqüência natural desta mudança que reflete a própria estrutura histórica original, interna e programática do PT, visto que a plataforma anticapitalista nunca fez parte da intervenção do partido, salvo em alguns setores da esquerda que tão logo adaptaram sua retórica às novas circunstâncias impostas pela direção majoritária.  

A seguinte analogia matemática é válida para elucidar melhor a questão: se pudéssemos colocar duas funções num mesmo gráfico, cuja variável do eixo das abscissas seria o tempo medido em anos e no eixo das ordenadas, o grau de subserviência ao receituário do Consenso de Washington e da comunidade financeira internacional, teríamos duas retas de coeficientes angulares positivos e diferentes. A de inclinação menor estaria identificada com o PSDB e a outra, com o PT. O ponto em que as duas funções se igualam, isto é, o espaço onde as duas retas se cruzam pode ser descrito na forma (x,y) como (2002,100%). A partir desse ponto as retas seguem paralelas infinitamente, se é que se pode afirmar isso sem quebrar as regras da matemática, em se tratando de funções lineares. E a função, tanto de um quanto de outro partido é gerenciar o aparato burguês e sustentar as orientações do FMI. 

Por que, poder-se-ia indagar, já que as duas funções são iguais, há o acirramento do confronto eleitoral e não a coligação ou mesmo a fusão entre os referidos partidos? Este é, seguramente, um fenômeno bem mais complexo. Primeiramente, ainda há uma forte ilusão a respeito do PT, levada entusiasticamente a cabo pela esquerda remanescente dentro e fora das instâncias do partido, de que o governo está em disputa ou mesmo de uma suposta inevitabilidade da política econômica adotada. Em segundo lugar, ainda no que se refere ao partido do governo, permanece a idéia da abertura ao diálogo com os movimentos sociais, ONG’s e sindicatos. Esta tese é verdadeira, aquelas são totalmente falsas. A aparência do diálogo, de fato, é uma característica inerente a um governo de frente-popular, ou seja, um partido operário que faz alianças políticas com a burguesia para ter mais chances de conquistar cargos e submeter o movimento de massas à sua influência. Mas este não é, de maneira nenhuma, o ponto principal da análise em questão.  

As leis da física rezam que os opostos se atraem, porém, neste caso, a recíproca também é verdadeira: os semelhantes se repelem. PSDB e PT disputam porque são frações concorrentes à hegemonia do mesmo projeto político, pai e filho do Plano Real e do imperialismo, a vertente tupiniquim de republicanos e democratas, galhos da mesma árvore cuja raiz é o gerenciamento do sistema capitalista. Como tal, converteram-se nos maiores partidos do país, os núcleos em torno dos quais giram as demais agremiações político-fisiológicas que se alimentam do seu poder.  

É muito comum, e às vezes deliberada, a tendência a dissociar o plano nacional da gestão municipal, mas não há separação. A personalização ou personificação da política sempre foi uma tática da burguesia: salientar os aspectos morais do candidato, ocultando as reais pretensões do partido político e da coligação, dos interesses envolvidos. Nenhum candidato contrário às diretrizes de sua legenda permanece nela; e mesmo que sua retórica as contradiga, o que é extremamente difícil, não entrará em conflito, pois esta é uma regra básica para sua manutenção no partido.  PT e PSDB aplicam, no âmbito das cidades, o que fazem nos Estados e no país e o voto representa a legitimação desta política. Por essa razão, a disputa é centrada em aspectos eleitoreiros: obras deixadas pela metade, investimentos não realizados, denúncias de corrupção e hipocrisia de ambos os lados. A nivelação das ideologias seguida à risca por PT, PSDB, PFL, PMDB, etc, consiste na supremacia e hegemonia do pensamento único no espectro partidário, deixando na absoluta margem a esquerda revolucionária, que, todavia, também verá crescer sua influência à medida que a necessidade do socialismo se torne cada vez mais presente às massas, como atestam os processos revolucionários em muitos países latino-americanos. 

A política burguesa é uniformizada porque não apresenta nada de novo. Tudo o que propõe é arcaico, caduco. As eleições municipais, se bem que localizadas, podem estar demonstrando um aspecto importante desse processo de esgotamento. É provável que o próprio acirramento da disputa eleitoral entre PT e PSDB desnude a semelhança inequívoca de suas plataformas programáticas. Nosso sistema linear de duas funções, então, daria lugar a uma terceira, totalmente incompatível com as anteriores, mas de solução definida no bojo da luta de classes. Enquanto permanecem as ilusões e a obrigatoriedade de comparecer às urnas, a arma mais apropriada continua sendo dizer NÃO ao projeto PT/PSDB através do voto nulo.  

Nota:

[1] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2110200413.htm

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